sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago e Eu

Hoje, 18/06/2010, minha manhã ficou triste quando vi a manchete no jornal: “Morre o escritor português José Saramago”. Tive a impressão de que meu coração parou por alguns segundos. Foi um choque... Uma tristeza.

José Saramago na Bienal do Livro do Rio, em 1999.

Fiquei me lembrando com saudade do único encontro que tive na vida com esse grande autor. Sim, tive essa sorte em 1999, quando era aluna de Letras da PUC-Rio. Portugal era o país homenageado na Bienal do Livro daquele ano. E Saramago foi um dos autores portugueses presentes no evento. Ele fez uma rápida passagem pela PUC a convite da Professora Cleonice Berardinelli e participaria de um debate aberto a toda universidade. Aquilo não só seria um grande prazer, mas sim uma sorte grande. Pois naquele semestre eu cursava Literatura Portuguesa e meu grupo faria um seminário sobre José Saramago. Tudo o que precisava era perguntar a ele sobre as minhas dúvidas em relação ao livro Ensaio Sobre a Cegueira. Este livro tornou-se o livro da minha vida, e a partir disso, Saramago se tornou o meu autor predileto.

Ter a oportunidade de perguntar sobre meu livro favorito ao próprio autor – que também tinha se tornado o meu autor favorito - me fez ter um frio na espinha de tanto nervoso. Lembro-me que tinha formulado perguntas sobre os personagens, a história e até mesmo sobre aquela maneira tão diferente de discurso: o uso de apenas pontos, vírgulas e ponto vírgulas e a falta de parágrafos em todos os seus livros... Mas cadê a coragem de pegar o microfone, fazer as perguntas e encarar o Saramago e toda aquela gente no auditório?? A Lilian, que era do meu grupo e minha amiga até hoje, pegou o microfone e leu as minhas perguntas. Confesso que fiquei frustrada por não ter conseguido vencer o meu nervosismo e falar com o meu autor favorito...

Quando acabou o debate, me retirei dali meio com raiva de mim mesmo, porém feliz por ter conseguido respostas para as minhas perguntas e assim a minha parte do seminário estava pronta. Fui ao banheiro do Departamentoo de Letras, que ficava do outro lado do auditório. Depois fiquei no corredor do andar arrumando minhas coisas na bolsa e na pasta. Pensei: “Pronto, vou pra casa. Missão cumprida”. Quando descia as escadas, adivinha com quem deparei subindo as escadas??? Ele, Saramago e a Dona Cléo. Deus tinha me dado uma segunda chance e desta vez não desperdicei e fui bem cara de pau: “Com licença, Sr. Saramago, posso perguntar uma coisa?”.
E ele respondeu muito simpático: “Claro, pode sim, minha filha”.
Nossa! Fiquei em estado de graça! E disse: “Sou aluna de Letras daqui, curso uma matéria de Literatura Portuguesa e meu grupo vai apresentar um seminário sobre o senhor. Eu vou falar do “Ensaio sobre a cegueira”... Li o livro, mas queria ouvir do senhor: Por que escolheu uma cegueira branca ao invés da negra/escura? Existe algum significado?”.
Ele respondeu: “Escolhi a cegueira branca porque queria mostrar a cegueira do espírito, que é pior que a cegueira física...”
Eu sorri e agradeci: “Muito obrigada!”
E Dona Cléo tratou logo de levá-lo dali, senão era capaz que eu arrumasse outras perguntas... rs

Lógico que mencionei o meu encontro com Saramago no final da minha apresentação e disse que Deus tinha me dado uma segunda chance com o meu autor favorito. Desde então sou fã, admiradora de Saramago e sua obra. A partir de hoje, não terei mais um novo livro do Saramago para ler... O que resta é me deliciar com Caim, seu último livro, que tive o prazer de comprar em abril e ainda está minha “fila de leitura”.

Pra finalizar, deixo uma mensagem, que recebi por e-mail do Departamento de Letras da PUC-Rio hoje, escrita por Dona Cléo, que era amiga de Saramago:

Em seu Diário , no dia 3 de Dezembro de 1935, escreveu Miguel Torga: “Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje...” Hoje, agora há pouco, neste dia 18 de junho de 2010, chega-me pelo telefone a notícia de que morreu Saramago. Não tenho pinheiros nem fragas para meter-me entre eles e ir chorar minha profunda tristeza, mas posso, pelo menos, dizer que estou chorando a morte do maior ficcionista de Portugal, um dos meus mais queridos amigos...

Cleonice Berardinelli

7 comentários:

  1. Jackie,

    muito emocionante seu post. Interessante como vc conseguiu transmitir essa emoção a mim que, confesso, me interesso por literatura muito menos do que deveria.

    Parabéns pelo post visivelmente sincero, pela bela pergunta ao Saramago e, principalmente, pelo teu interesse precoce e natural por coisas que todos (incluindo eu) deveriam se interessar mais.

    Bjo!

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  2. JAckie, vc conseguiu me emocionar de verdade. Conforme fui lendo a história fui visualizando-a. Realmente Deus sempre nos dá "segundas, terceiras e N" chances em nossas vidas.
    Graças a Ele vc soube aproveitar.
    Adoro ler seus posts!

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  3. É estranho, os imortais também morrem. Quando a gente recebe uma notícia dessas é um um tanto difícil de assimilar. Engraçado eu nunca ter conseguido ler Saramargo (mesmo depois das tuas insistentes tentativas) e mesmo assim ter ficado tocada com a notícia. Acho que é porque ele transcendeu a esfera da literatura e a sua figura em si já representa grandiosidade, não só literária, mas grandiosidade humana acima de tudo.
    Esse capítulo da tua história, eu já conhecia, mas você contou de forma lírica aqui. Parabéns.

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  4. Ai Jackie, confesso que aquele trabalho foi um orgulho pra mim, o cito até hoje...mais uma conquista sua, minha também, por ser cara de pau também, e enfim, uma lembrança registradas por nossas mentes, que são muito mais infalíveis do que qualquer câmera digital de alta resolução. te amo!

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  5. Obrigada pelos comentários, amigos! Escrever sobre o meu momento com Saramago no dia de sua morte foi difícil. Mas que bom que vocês conseguiram captar a minha emoção. Só me resta lamentar que naquela época não existia câmera digital e muito menos celular com câmera... Vai ficar na memória mesmo!
    E mais uma vez obrigada, amigos e leitores do meu blog!

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  6. José Saramago era mesmo um mago das letras. O Ensaio sobre a cegueira é mesmo fabuloso.
    Mas nem todos vão lembrar dele como deveriam.
    Na mesa redonda sobre futebol do Milton Neves chegou a noticia de sua morte, quando um dos covidados, ex-jogador, disse:
    - Quem é José Saramago?
    o jogador Denilson proferiu:
    - Po, cara, ele já ganhou dois "Grémis"!
    É o final do apocalipse!!

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  7. "Grémis" foi a melhor!! Hahahaha
    Beijos, Fábio!!

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